A literatura de Anne Holt - Uma questionadora que é fenômeno de vendas, suas obras chegam ao Brasil pela Fundamento

Por TATI LOPATIUK

Revista Subjetiva, 04/02/2017

Uma das escritoras escandinavas de mistério mais bem-sucedidas do mundo, com mais de 6 milhões de livros vendidos, Anne Holt acredita que a realidade é dura e merece ser contada com essa mesma dureza. Sucesso com seus romances policiais onde uma mesma personagem se desdobra para resolver casos de assassinato e violência, seus livros estão aí para provar que ela segue à risca o que diz.

Lançamentos recentes da Editora Fundamento, “Demônio ou Anjo” e“Números de Azar” trazem a detetive Hanne Wilhelmsen tendo que lidar com diferentes crimes em uma corrida contra o tempo e também contra condições nem sempre favoráveis. Tendo lido os dois livros de uma vez só, posso dizer que ambos entregam o que prometem: muita ação, violência e suspense. No entanto, eles vão além e entregam um pouco mais, algo difícil de se encontrar na literatura detetivesca (e na literatura como um todo): um toque de conscientização sobre temas delicados como maternidade e violência sexual contra mulheres.

Em Demônio ou Anjo, temos o caso de uma mulher que é brutalmente assassinada dentro do local de trabalho, um orfanato. Desde o primeiro momento, temos em paralelo a voz da mãe de uma dessas crianças nos contando como seu filho foi parar nessa instituição. Como o caminho dessa mãe e do assassino vão se cruzar, é o que veremos mais adiante nessa leitura de final surpreendente. Aqui, Holt usa o crime como pano de fundo para uma narrativa maior, que é falar do destino das crianças largadas à próprias sorte em casas de apoio — e da luta das mães que, sem apoio externo algum, são forçadas a deixarem seus filhos para que outras pessoas cuidem e ainda são condenadas por isso pela sociedade.

Números de Azar é a terceira aventura da detetive Hanne Wilhelmsen e dessa vez as coisas são ainda mais violentas. Em meio ao verão de Oslo, um serial killer escolhe sempre o dia de sábado para atacar, deixando um rastro de sangue e números misteriosos marcados nas paredes das casas onde ataca. Cabe à Hanne se antecipar ao criminoso e descobrir sua identidade antes que o próximo final de semana chegue. Aqui temos cenas fortes de violência sexual e é preciso ter estômago forte para prosseguir com a leitura, muitas vezes sendo impossível evitar as lágrimas.

Segundo Anne Holt, esse incômodo é proposital e necessário.

A intenção não é escrever desta maneira tão dura para comover, o que acontece é que a realidade é difícil e você tem que contá-la assim. Fico feliz em saber que o sentimento do leitor ao ler seja este, porque este é o caso. O que acontece é assim tão difícil.

— Anne Holt em entrevista ao El Diario.

Hanne Wilhelmsen, a detetive de Anne Holt, é uma mulher forte e determinada, mas também com muitos questionamentos internos. Se não mede esforços para cumprir seu trabalho e levar até o fim suas investigações, por outro lado, deixa escapar o fio da meada da sua vida pessoal, negligenciando relacionamentos e a si mesma. Outro ponto interessante dessas histórias, Wilhelmsen é lésbica e tem dificuldade em assumir publicamente seu relacionamento de anos com a namorada, com quem divide o lar. Mais um ponto incomum nesse nicho de literatura, sobretudo por ser tratado com respeito e sem apelação (algo que, vamos falar a verdade, poderia acontecer se não fosse uma mulher a escritora).

Se trata, sem dúvida, de uma autora incomum e é uma alegria saber que vende tanto. Embaladas em histórias empolgantes e escritas com esmero, temos questões importantes para serem debatidas. Isso só comprova que entretenimento não precisa ser algo “vazio” de significado, mesmo quando à primeira vista parece ser. Apenas um livro, alguns dirão. Mas a conscientização começa por aí e é incrível ver uma mulher tendo a voz que Anne Holt tem para levar esse debate à diante.


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Publicada originalmente na Revista Subjetiva no dia 04/12/2017.